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“Brasil e China são complementares”, diz especialista

“Brasil e China são complementares”, diz especialista

Líder global da consultoria Deloitte na China, Rosa Yang, explica o interesse crescente do país asiático na economia nacional

A China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil e o país tem aumentado seus investimentos por aqui nos últimos anos. Em 2016, o total de investimento estrangeiro direto foi de 879 milhões de dólares (2,77 bilhões de reais). O interesse crescente em investimentos por aqui também é visto em outros países, em linha com o movimento de integração cada vez maior da segunda economia do mundo com outros mercados.

Além das operações que são orientadas pelo governo, como no caso das estatais, há também o fluxo vindo das empresas privadas chinesas, que buscam se internacionalizar.

A reportagem de VEJA falou com a líder global da Deloitte na China, Rosa Yang (este é seu nome “ocidental”, em mandarim ela se chama Yang Ying) sobre o interesse no Brasil. A empresa, que é conhecida por fazer auditoria fiscal, presta serviços de consultoria para companhias que querem atuar em outros países.

Por que há interesse da China em investir no Brasil? Do ponto de vista do mercado, a China e o Brasil são altamente complementares. Vocês precisam construir infraestrutura, a China tem a capacidade de ajudá-los. Por outro lado, a China precisa de muitos produtos agrícolas, recursos para desenvolver a economia, e vocês têm isso. Os dois podem cooperar, e isso é realmente bom. Infraestrutura e recursos energéticos são os tipos de investimentos chineses que estão no Brasil desde há muitos anos. Mas há novos setores da indústria chinesa, como o automotivo, vindo para cá. O Brasil é um grande país, o quinto maior do mundo, com grande população e classe média crescente, o que significa uma grande quantidade de consumo.

Por que as companhias chinesas estão indo para outros países se a China também tem uma grande população e uma classe média também crescente? Há uma variedade de razões.  O principal interesse, talvez, é otimizar sua cadeia de suprimentos global. Eles estão integrando sua cadeia de produção verticalmente. Há também a possibilidade de fazer aquisições, e assim entrar em um mercado novo, para ter novos consumidores. Alguns podem ser globais para adquirir novas tecnologias de que precisam para melhorar suas vantagens competitivas.  Estamos vendo as empresas indo para a África, América do Sul, Oriente Médio. São mercados emergentes. E há também um monte de investimento chinês que indo para mercado maduro, como Estados Unidos, Reino Unido e  Alemanha.

É mais difícil para empresas estrangeiras investirem no Brasil que em outros países? Eu não diria que é mais difícil operar no Brasil, embora em certa medida, falando sobre sistemas legais ou leis tributárias, é mais sofisticado, mais complicado, para muitos investidores estrangeiros. Se os legisladores brasileiros pudessem tornar esses sistemas mais diretos, tornar as coisas mais fáceis, mais simplificadas, isso seria muito útil para os negócios. Eu suspeito que não só é difícil para os investidores estrangeiros, mas também para o seu negócio local. Mas não é necessariamente um desafio às companhias estrangeiras.

 

“Se os legisladores brasileiros pudessem tornar os sistemas tributário e legal mais diretos, mais fáceis, isso seria muito útil para os negócios”

 

A China é um país com governo centralizado e bastante estável, ao contrário do Brasil. Essa diferença não atrapalha? Na China, temos mudanças também, pode ser só que não sejam tão grandes. E o governo está bem planejado e organizado. Agora, por exemplo, estamos discutindo os planos para os próximos cinco anos. Esse tipo de processo de planejamento nacional grande ajudará a orientar os negócios em termos de onde se concentrar ou investir, isso é verdade.  Mas se você comparar o Brasil com algumas partes da África, por exemplo, acho que o país é muito bom.  O Brasil é um grande país, vocês não tiveram nenhuma grande guerra civil na história. Se você comparar com a China, agora o governo de lá é mais estável. Mas há teve várias guerras civis e o país estava uma confusão cem anos atrás.

Os investidores são homens de negócios, e os homens de negócios vão para todos os lugares, se houver oportunidades. Nos últimos dois anos, apesar de o mercado brasileiro ter sido muito turbulento por causa das instabilidades políticas e também de outras coisas, os investimentos chineses, e também dos japoneses, estão aumentando.  Capital vai para onde as oportunidades existem.

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